segunda-feira, 7 de abril de 2014

Capítulo sete

   Acordei com um ventinho frio vindo da janela. Deslizei o dedo na tela do meu celular e olha que moça direita eu sou, são 9h00 da manhã. Como meu cérebro é um chotonildo e não consegue dormir depois que acorda, a opção que me resta é levantar. Tomei um banho para despertar o corpo, aquela água morna escorria e parecia que toda a preguiça ia com ela. Olhei minhas poucas roupas e escolhi uma blusa listrada que eu amo, uma calça boyfriend e minhas sapatilhas – já disse que eu AMO sapatilha? Pois é, e sandálias também. Penteei meus cabelos e fiz um rabo de cavalo mesmo e passei um gloss bem clarinho nos lábios. Sai do quarto e a casa estava bem silenciosa – claro Emma, só existe você e o Bruno nessa casa, para de ser burra -, tomei certa liberdade e fui explorar mais um pouco sua cozinha para preparar um café da manhã.


  
Espero que ele não fique bravo por invadir seu território, e fazer barulho! Separei dois ovos e umas tirinhas de bacon – café típico americano -, deixei a frigideira esquentando um pouco no fogão. Peguei o processador e exprimi algumas laranjas. Mexi  ovos, fritei o bacon e coloquei a mesa, é, tudo pronto. Lavei a bagunça que e fiz e guardei, melhor deixar tudo organizado antes que o chefe acorde.

   Olhei no relógio da cozinha, que marcava 10h10 e ele não havia acordado, já deu para perceber que ele adora dormir. Seria muita falta de educação minha fazer tudo e comer antes dele? Comida esfria e a fome fala mais alto nessas horas, meu Deus sou gorda. Melhor dar um tempinho. Olhei pela janela da cozinha, o fundo da casa também era lindo e por que não explorar?! Abri a porta da cozinha e logo um ventinho gelado bateu, fazendo-me arrepiar brevemente. O céu estava limpo, com um sol bem preguiçoso para aparecer, gosto assim. Andei pela piscina cantarolando uma canção qualquer, até que uma casinha de cachorro me chamou a atenção, acho melhor eu voltar pra dentro antes que aparece o dono desse quintal.

   Quando caminhava de volta à cozinha levei um susto seguido de uma queda com a cara no chão. Sentia um peso grande em cima das minhas costas, que ora dava uma fungada no meu pescoço. Finalmente me virei e levantei, ficando sentada ali e olha que maravilha, um cachorro quase monstro estava sentado em minha frente com a língua pra fora e abanando o rabo. Tá, esse daí está mais pra Lassie do que pra monstro. Fiquei sentada por mais um tempinho, e o cachorro continuou a me olhar, passei a mão sobre sua cabeça e ele ficou parecendo cachorro vira-lata. Todo folgado.

– Pelo que vejo, já conheceu meu monstro do lago Ness – Bruno chegou à porta me ajudando a levantar.

– Monstro? Você quer dizer Lassie, não é?! – Digo folgando nele.

– Coitado, não fale assim do meu garotão – ele faz carinho na cabeça do seu cachorro e faz um sinal com a mão para ele voltar pro quintal.

***

– Desculpa se te acordei com meus pequenos barulhinhos na cozinha – digo recolhendo a louça suja e 
colocando na pia.

– Olha, eu não estou acostumado a acordar cedo assim, mas eu posso desculpar porque depois desse café, de acordar com o café na mesa. Meu Deus. – Ele fala e rimos juntos.

– Mudando de pato pra ganso, que horas você acorda normalmente?

– Depende, tem dia que acordo 13h00 ou mais tarde, mas quando preciso ir ao estúdio levanto cedo – 
Bruno diz na maior cara de pau.

– Eu hein, dormindo tanto assim vai acabar virando o Morfeu na Terra.

   O restinho da manhã foi pacato, conversamos mais um pouco, ele me mostrou melhor sua casa, seu cachorro ou melhor dizendo, Gege.

– O que é aquela construção ali? – aponto para uma “casinha” nos fundos da casa.

– Ah, é o meu pequeno estúdio. Aqui é como posso dizer, meu cantinho! Quando não estou no estúdio no centro fico aqui – ele me leva até lá. – Gosto de compor ou simplesmente pensar na vida aqui, é mais aconchegante.

   Não dei um pio desde que entramos lá, fiquei apenas observando. Ele deve se sentir mais a vontade quando está aqui. Bruno tem um jeito meio misterioso, não sei. Ao mesmo tempo em que ele é brincalhão e que você acha que o conhece tão bem, você simplesmente não sabe de nada. Ele é uma incógnita. Sentamos em duas cadeiras de frente para uma mesa cheia de aparelhagem, como ninguém se perde no meio desses botões todos?

   Me dei conta de mandar uma mensagem para Abigail – ou Abbie, como ela gosta de ser chamada – para vir no jantar hoje. Bruno disse que eu poderia convidar quem eu quisesse, e assim posso conhecê-la melhor. Legal, deixei meu celular no quarto. Assim que saímos do seu estúdio senti um vento gelado percorrer minha espinha e um grande arrepio tomar conta de mim, dei uma corridinha até entrar na cozinha, que maravilha de lugar quentinho. Bruno logo entrou resmungando baixinho, deve ser pelo frio repentino. Viram? Até rimou.

***

   Bruno e eu fomos a um restaurante menos movimentado, e apesar de ter insistido em pagar a conta ou pelo menos dividir, ele acabou pagando tudo. O sol deu as caras e o clima esquentou um pouquinho, mas um clima nada favorável para piscina – obrigada Deus – como ele havia escrito na mensagem que me mandou. O tempo foi passando, e passando, e passando... Até eu ver que devia começar a me arrumar.

Bruno Pov’s

   Assim que ela foi se arrumar fiquei enrolando na sala. Se fosse com outra mulher eu já teria ido para a cama, mas com ela é diferente, é difícil explicar. Ao mesmo tempo que eu penso a hora é agora, algo me faz recuar. Qualquer um em meu lugar já estaria entediado, essa lenga lenga de conversar, assistir TV e tudo mais. Ela é hmm, inusitada talvez, esses dois dias mais pareciam anos, que eu a conhecia há anos. Não, eu não estou apaixonado por ela. Acho melhor eu me arrumar também e de hoje não passa.

Emma Pov’s

   Finamente pronta! Chequei minha maquiagem, passei as mãos pelo vestido, tudo certo. Assim que saio do quarto escuto a campainha tocar, deve ser o pessoal chegando. Para minha surpresa não, em minha frente estava três homens e cada um segurava umas duas caixas, creio eu.



– Senhora, os pedidos para o jantar – disse o mais alto deles.
Jantar nessa casa hoje tem, mas e se forem bandidos querendo nos assaltar. Deixo-os entrar ou não? Eita dúvida cruel.

– Tudo bem, podem entrar e coloquem na cozinha, por favor – escuto a voz de Bruno soar de algum canto da sala.

Dei passagem a eles e os acompanhei até a cozinha, sentei-me numa das cadeiras e vi Bruno pagando e fechando a porta.

– Primeiramente eu ficaria muito grata se você parasse de aparecer atrás de mim do nada. Parece até filme do Hitchcock.

– Nossa que criança, se assusta fácil, fácil – ele fala abrindo as caixas e coloco a língua pra ele.

– Interessante, então ao invés de você cozinhar você manda logo um restaurante entregar pronto – folgo nele. – Pensei que havia dito que se “Oprah Winfrey provar minha comida ela não sai mais daqui” – falo gesticulando as aspas e fazendo/tentando uma voz masculina.

– Não é por que vai comer na minha casa que a comida é necessariamente feita por mim. Pode ser feita pela empregada também. – Bem esperto ele.

Hmm, já comentei que Bruno está, falando como uma adolescente, gatinho?! A calça skiny mostra bem suas pernas e... Bem, bunda eu não posso dizer já que ele não tem. Sabe, ficar com ele nesses dois dias foi bom, eu até esqueci aquele chilique de Quentin. Não posso esquecer de compartilhar com vocês que olha, ele tem um sex appeal que minha nossa, mexe até no fundo da alma! Tô parecendo tarada falando assim, não é? Pelo menos estou me controlando e não saí me atirando pra cima dele.

   Depois de colocar a comida em recipientes, Bruno os dispôs na mesa. Que moço prendado.

– Não cozinha, mas pelo menos arruma a mesa que é uma beleza – me levantei da cadeira e apoiei meu braço esquerdo em seu ombro.

– Nossa que engraçadinha você, e folgada também. Já pensou em fazer stand-up? - Diz ele olhando pra mim.

– Eu sou tão cômica que se montasse um stand-up tomava o lugar dos outros comediantes, melhor guardar meu dom só pra mim mesmo – a piada foi uma bosta, mas rimos.


Epa, contato visual grande agora (entenderam o trocadilho? Contato visual grande, olho do Bruno grande também. Tá legal, eu paro). Imaginem aquela música romântica de fundo, a gente se entreolhando, rostos se aproximando e... Isso mesmo, a maravilhosa Emma que vos fala se desvencilha. Palmas para mim! Me deem um desconto, agi sem pensar, foi reflexo. A desculpa não colou muito eu sei. É que ao mesmo tempo que eu quero algo eu tenho medo. Mas como se eu não tivesse o beijado antes; mas aquele beijo não conta, fui pega de surpresa. Ai caramba, eu estou num dilema comigo mesma, é isso?! Santo Deus, a campainha tocou de novo e dessa vez vi a multidão entrar. Bom, vamos esquecer tudo isso e pensar que daqui a pouco é hora de comer.